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A MINHA CONTA


“As duas primeiras décadas do século XX apresentam as mais relevantes mutações no contexto das viagens de arquitectura(…). 
Os mentores da modernidade procuram no passado novos fundamentos para a arte da pós-revolução industrial, num sentido que vai para além do seu mimetismo linguístico. A síntese operada através dessa experiência de viagem irá resolver a esterilidade de um processo criativo que se inicia com o mote da máquina e da produção em série. Será o tema e consequências das viagens de Lewerentz, Asplund, Le Corbusier, Aalto, Mies, Taut, ou Kahn.” 

“Na historiografia portuguesa não existe informação que nos permita avaliar a influência do Grand Tour na formação e produção dos arquitectos portugueses do século XIX, pelo menos não no sentido em que a podemos detectar na obra de Adam, Soane ou Schinkel. O principal momento de contacto com a “grande cultura” parece ter ocorrido na formação de alguns arquitectos que, sobretudo nas Beaux-Arts de Paris, encontram a oportunidade para o alargamento do conhecimento através do contacto directo com a arquitectura que ali se produzia.”

“Ao falar de arquitectura e viagem em Portugal será importante começar por sublinhar que a ideia do Grand Tour chegou a Portugal mais rapidamente através da literatura, acompanhando a moda das narrativas de viagem que se difundem desde o século XVIII, que da experiência vivida e relatada pelos arquitectos. E esse conhecimento proporcionado pela viagem transfere-se para uma experiência no território nacional, por razões económicas”.

“De facto, embora os cruzamentos de influências tenham sido aparentemente provocados mais pela acção do cliente que do arquitecto, a casa de Serralves apresenta um bom exemplo da modernidade gerada pela viagem. Para além da influência que resulta das participações do arquitecto paisagista Jacques Gréber, do arquitecto Charles Siclis e do arquitecto-decorador e produtor de móveis Jacques-Émile Ruhlmann, Marques da Silva parece ter sofrido uma particular influência na obra de Mallet-Stevens (1886-1945).”

"Carlos Ramos viaja pela Espanha (1918), França e Bélgica (1920). (…) Em 1929 viaja pela Europa para estudar centros hospitalares (…) . Esse contacto com o exterior, relevante na obra, foi-o também na pedagogia que introduz na EBAP para onde entra em 1940 para abrir a escola ao mundo e motivar à viagem, de Fernando Távora por exemplo. Depois de 1950, com a presidência da secção portuguesa da UIA, as viagens para a Europa e América Latina sucedem-se ininterruptamente.”

“Hoje a viagem de arquitectura constitui uma aprendizagem própria que não perde o propósito original de investigar nas suas formas (do passado e do presente), o sentido universal dos seus princípios de concepção visual e construtivo. Para muitos, a descoberta do sentido e importância da viagem começou com Fernando Távora na Teoria e História da Arquitectura da ESBAP (anos 80) onde, através da narração das suas viagens, introduzia os alunos numa perspectiva disciplinar que usa a história como uma ferramenta para o projecto.”

(“A viagem na Arquitectura Portuguesa do século XX”, José F. Gonçalves)


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